Fuga

capa_senhor_da_dancaTrecho do livro “O Senhor da Dança”:

No lado sul do Tsangpo, encontrei uma pequena casa de retiro na encosta de uma montanha. Eu a reformei e aumentei antes da chegada de Khenpo Dorje, depois fiz um nyungne de 16 dias, uma prática que requer total jejum, incluindo não beber líquidos um dia sim, um dia não.

Antes de deixar Lhasa, sugeri a Khenpo Dorje que uma boa maneira de aproveitar meu tempo em Kongpo seria fazer um retiro. A isso ele respondeu:

— Não é o momento para fazer retiro. Agora, você precisa ensinar, pois são os ensinamentos do Buda que mais irão beneficiar as pessoas nos tempos difíceis que estão por vir.

Pensando nisso, comecei a sair de minha casa de retiro para ensinar, dar iniciações e fazer cerimônias.

Com a aproximação do inverno, eu e outro lama, Kham Wang Tulku, fizemos um drupchen, ou prática da “grande realização”, de Vajrakilaya. A deidade de meditação, Vajrakilaya, é uma expressão irada de compaixão e sabedoria. O praticante adota a atitude invencível de Vajrakilaya e usa as habilidades da meditação e do ritual para purificar completamente os venenos da raiva, apego, ignorância, inveja e orgulho. Quando esses venenos internos são removidos, seus reflexos externos, que surgem como inimigos, doenças e circunstâncias ruins da existência ordinária, também são removidos.

Naquele momento, quando os tibetanos estavam sendo confrontados pelo exército chinês, os que entre nós eram lamas precisavam levar os métodos de purificação ao maior número de pessoas possível. Não tínhamos esperança de que os conflitos violentos que varriam o Tibete Oriental e assolavam Lhasa pudessem agora ser evitados em Kongpo por meio de cerimônias religiosas, não importando quão poderosas elas fossem. Em vez disso, esperávamos que, para as pessoas que participavam dessas cerimônias, as condições cármicas para vivenciar a violência pudessem ser purificadas. Esperávamos que pudessem ser capazes de lidar habilmente com as forças hostis da guerra, sem fazer surgir o ódio. Esperávamos que a virtude gerada nas cerimônias as protegesse, mas, se viesse a morte, que elas pudessem encontrar liberação.

Khenpo Dorje chegou de Lhasa depois da cerimônia de Vajra-kilaya e ficou comigo, em minha casa de retiro, pelos seis meses seguintes. Os primeiros 18 meses em Kongpo foram profundamente gratificantes. Foi um tempo em que pude servir às pessoas e a meu venerável lama, e foi, naquela região, um tempo de paz relativa e de integridade cultural e religiosa.

Na primavera, Kham Wang Tulku, três outros lamas e eu organizamos um drupchen de Guru Rinpoche ao qual compareceram centenas de pessoas. Juntos, recitamos dez milhões de mantras de Guru Rinpoche. Apesar de não ter ficado claro na época, essa longa cerimônia marcou um momento decisivo para mim e para os outros quatro lamas. Os chineses temiam nossa habilidade de reunir tantas pessoas. Não acreditavam que nossa motivação fosse puramente religiosa, e tinham a paranoia de que pudéssemos nos organizar politicamente ou criar uma resistência militar. Não reagiram paranoicamente de imediato, mas, quando o fizeram, os outros lamas e eu tivemos que sair como raposas fugindo de caçadores.

(p. 163-165)